28 fevereiro, 2008

Na terra dos Manezinhos (ou quase)


No mais recente Carnaval, cheguei um pouco mais perto de um feito para cuja realização venho acumulando tentativas já há alguns anos: voltar a Floripa, a Ilha da Magia. Estive lá há muito tempo, quando tinha dez anos de idade (não vou dizer quantas décadas faz isso!!), e pouco me lembro da região, o que é realmente uma pena. O esquecimento infantil e involuntário só tem aumentado minha curiosidade, desde então, por voltar à ilha, sempre que ouço histórias sobre a beleza e as surpresas do lugar.
Pois bem, nesse feriado carnavalesco, de novo, achei que iria concretizar o tão esperado retorno. Algumas idas e vindas pelo meio do caminho, no entanto, fizeram valer a tradição: na última hora, meu destino mudou, embora dessa vez para paragens muito próximas do objetivo original. Fomos a Bombas, praia que fica quase ali ao lado, num passeio que valeu também muito à pena. Bombas e sua vizinha Bombinhas fizeram com que o feriado passasse muito mais rápido do que desejássemos. A cor azul-esverdeada do mar, as ruas simpáticas e o vento da praia tornaram duas vezes mais difícil a volta para a Paulicéia.

Bem, mas para além da beleza do lugar, não poderia deixar de registrar algumas coisas pitorescas que me chamaram a atenção. :) A primeira, sobre a qual já tinham me advertido, foi para não me frustrar por não ter ido a Floripa, já que, pelo visto, é fenômeno recorrente a todas as praias ali: a enorme, incrível, onipresente presença (merece a redundância, pois é grande mesmo, rs) de argentinos, portenhos e afins no litoral catarinense. A ponto de muitas das placas e até mesmo as faixas dos camelôs na praia serem escritas em duas línguas. A ponto de, na pousada, a nossa mesa ser a única, entre os hóspedes, em que a conversa era falada em português. Impressionante a predileção dos hermanos pelas praias de SC. Em certos momentos, cheguei a me perguntar se estaria realmente no Brasil, rs.

E a segunda coisa que me chamou a atenção é – pronto! – a também onipresença dos gaúchos naquelas paragens. Pelo que entendi, em temporadas, SC é invadida por gente vinda do sul e do oeste, de dentro e fora do país. Andando na rua, mais de uma vez nos deparamos com prédios de apartamentos com a bandeira do RS orgulhosamente estirada nas janelas. Num passeio de veleiro que fizemos, o monitor perguntou: “existe alguém do Paraná aqui?” Nada. “Existe alguém de São Paulo?” Incrivelmente, só eu (nesse momento me perguntei para onde foi todo aquele povo que me fez amargar 12 horas de trânsito na estrada até ali). E quando ele perguntou “Alguém do Rio Grande do Sul?”, o veleiro INTEIRO se pôs a cantar: “Ouve o canto Gauchesco e brasileiro, desta terra que eu amei desde guri”...

Pois é. Já fui chamada de bairrista algumas vezes pelo modo como falo da minha terra natal. Talvez eu seja mesmo, um pouco mais ou um pouco menos, como todo paulista. O bairrismo paulistano se mostra de forma menos ostensiva do que o gaúcho (aliás, existe algum povo mais ostensivamente bairrista do que o gaúcho? Digo isso em tom de observação, não de crítica, que fique claro, hehe). Mas somos bairristas à nossa maneira quando acreditamos, por exemplo, que paulistano não tem sotaque; que, para fora de São Paulo, o mundo se divide não em cidades, mas em dois ambientes denominados “campo” ou “praia”; que, apesar de todas as mazelas, não há lugar melhor para se prosperar e viver bem do que a terrinha da (ex-)garoa. Esses são alguns exemplos, exagerados porém reais, de manifestações bairristas que já presenciei por aqui.
Não me considero cultivadora de nenhuma delas, mas devo dizer que, nesta viagem, estranhei mesmo, um pouco, a ausência paulista na vizinhança. Não por sentir falta, propriamente. Mas porque, viajando pelas praias por perto de SP, é comum encontrarmos hordas de paulistanos tentando aproveitar os feriados em meio a uma multidão similar à dos engarrafamentos diários na capital.
Ao ver praias de outro estado tomadas por caravanas de pessoas que não eram daquele local de origem, mas que imprimiam uma marca tão sua ao lugar, me pergunto o que, naqueles dias, seria feito dos catarinenses. Deviam estar um tanto acuados, talvez, como ficam os nossos caiçaras daqui, ao ver suas terras invadidas por gente de fora, tentando emprestar um pouco dos ares marítimos que eles vivenciam em tempo integral. Ou talvez estivessem felizes, aproveitando o movimento para aquecer a economia.
De qualquer forma, com ou sem "estrangeiros" (afinal eu também fui uma), o passeio foi lindíssimo e de renovar a alma. Impressionamente como o sul oferece, na verdade, inúmeras (e inesperadas) chances de comunhão com a natureza e interação cultural. Pra nenhum bairrista ou cosmopolita botar defeito. :)
Por Paulista, já quase bi-cidadã :)

01 fevereiro, 2008

Feriadão típico


Vida de gaúcho é assim mesmo.
Passa a semana toda pensando no feriadão
Em Santa.
Imagina as praias que vai visitar
Em Santa.
Prepara a mala, com roupas para o carnaval que vai curtir
Em Santa.
Daí chega o final de semana, entra na previsão do tempo e descobre que vai chover
Em Santa.
Que beleza!!!
Por gauchita

11 dezembro, 2007

Pai Nosso Gaúcho

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito santo e com licença, Patrão Celestial.
Vou chegando, enquanto cevo o amargo das minhas confidências, porque, ao romper da madrugada e a descambar do sol, preciso campear por outras invernadas e repontar do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.
Eu bem sei que qualquer guasca, bem pilchado, de faca e rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida, se não se estriba na proteção do céu.
Ouve, Patrão Celeste, a oração que Te faço, ao romper da madrugada e ao descambar do sol. Tomara que todo mundo seja como irmão!
Ajude-me a perdoar as afrontas e a não fazer aos outros o que não quero para mim.
Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me sólto porteira-a-fora... Êta, potrilho chucro, renegado e caborteiro...
Mas, eu Te garanto, meu Senhor, quero sem bom e direito.
Ajude-me, Virgem Maria, primeira prenda do Céu.
Socorre-me, São Pedro, capataz da Estância Gaúcha.
Prá fim de conversa, vou Te dizer, meu Deus, mas somente prá Ti:
que Tua vontade leve a minha de cabresto prá todo o sempre e até a Querência do Céu,
AMÉM."

Colaboração: Lú Rezende

04 dezembro, 2007

Valei-me meu São Jorge

Desculpem o desaparecimento desse espaço queridos (as), é que a dor é tamanha que meus dedos simplesmente se negavam a escrever.
Ainda é possível sentir o nó na garganta e a profunda dor no peito.Esse sapo caros amigos, será difícil de engolir.
O fato é que esta semana o Guaíba está salgado.Não pelo choro desta torcedora que vos escreve, mas pelas lágrimas de todos os torcedores alvinegros que nessa terra abençoada desembarcaram.E não foram poucos.Porto Alegre viu chegar ônibus e mais ônibus cheios desses esperançosos e apaixonados torcedores.Sofreram preconceitos, agressões (verbais e físicas) foram desmoralizados do início ao fim, mas estavam de corações inteiros, com fé e esperança no Timão que os unia.

Porto Alegre ficou calada na hora do jogo; Sacis e Mosqueteiros se uniram para catimbar o gavião que chegava sem muitas penas e com os olhos furados.A Tv local transmitia Inter e Goiás.Não consegui olhar...assim como não consegui me juntar aos Mosqueteiros que lotavam os bares e cafés, assistindo a transmissão de Sampa.Não havia onde se apoiar, não havia a quem recorrer.Sofri calada, sozinha, distante das informações e dos gritos.
Soube do resultado numa esquina qualquer da Cidade Baixa.Precisei comer ao lado de muitos gremistas e colorados felizes.A comida queimando a garganta ao ouvir os comentários maldosos...
Quis o destino que meu amado Corinthians caísse bem aqui, no quintal de minha casa, ao alcance dos meus braços.Se o jogo tivesse sido em Sampa, talvez não machucasse tanto...ou não...mais uma vez o destino uniu São Paulo e Porto Alegre, e a despedida novamente foi triste...

Dessa vez o dragão era muito grande, né São Jorge?Não dava para acabar com tudo em um único jogo.Talvez a vitória somente jogasse a sujeira mais uma vez para baixo do tapete. É, talvez tenha sido melhor assim: arrancar sem dó toda a casca de uma ferida que não estava cicatrizando de verdade, para que uma nova pele, um novo ser apareça.
Mas como dói meu São Jorge!!
Mais do que perder, mais do que rebaixado, como dói saber que o maior desejo dos outros era te ver caindo...não doeu o gol adversário, não doeu o apito final...doeu sim ouvir a torcida de mosqueteiros (que conhecem melhor do que ninguém a dor do rebaixamento) gritar “segunda divisão” para aqueles infelizes que viajaram 18 horas e terminaram o jogo humilhados e soluçando como crianças, cobrindo seus rostos com as camisas do time do coração.
Não adiantou reza brava, dezenas de ônibus nem trazer a bateria da Gaviões...nada adiantou...
E o que era uma brincadeira de crianças, uma guerra ente mocinhos e bandidos, virou uma luta entre grandes investidores, entre parceiras nebulosas..e a torcida, que ama, que chora, que luta que merece ser feliz, essa ficou de escanteio, derrubando suas lágrimas no Guaíba.
Aquele, que ainda está salgado...

02 dezembro, 2007

É uma partida de futebol

Bem. As pessoas que convivem comigo mais de perto, sabem que sou Sãopaulina. Mais, sabem que sou aquela Sãopaulina típica: que só aparece quando o time ganha, que não acompanha jogo, que não sabe nem mesmo qual a escalação atual do time para o qual diz torcer. Alguém para quem a imagem do próprio clube se resume a estrelas do passado remoto ou recente, que conseguiram fama razoável, mais pela própria trajetória do que até por terem usado a camisa tricolor - Raí, Zetti, Kaká. Alguém que jamais poderia estar, inclusive, comentando futebol por aqui.

Porém, mesmo com esse perfil torcedor altamente recriminável, devo dizer que acompanhei com certo interesse a saga alvinegra deste domingo. Em parte pelas conversas das amigas e amigos corinthianos sofredores, em parte porque minha vizinhança não me deixaria, de qualquer forma, ignorar o jogo de hoje; em parte porque o opositor era o Grêmio, ou seja, assunto garantido para esse blog. E em parte porque minha porção pentelha não me permitiu ignorar o fato de o Corinthians estar à beira do rebaixamento, rs.

Mas tudo bem, apesar das rixas imemoriais - e irracionais, é bom frisar - devo dizer que me compadeci ao ver a cara de armaggedon dos torcedores alvinegros quando o juiz apitou final de jogo. Por um momento, imaginei o sofrimento daqueles para quem um time de futebol é a maior fonte de alegria, orgulho, sonho e tudo o mais, presenciando um triste espetáculo como esse. Em nome do fair play, amigos, sinto muito. Coloco-me por um segundo no lugar de vocês. De verdade.

Mas, vocês vão me desculpar... ainda tricolor, me permito aqui fazer uma homenagem ao Grêmio. Afinal, tem seu mérito um time que consegue colocar o Timão na segundona. E desejo que ele, o alvinegro, possa tirar ensinamentos para voltar ainda mais forte daqui a algum tempo, pois isso será bom para toda a torcida e para todo o futebol brasileiro. E que o Grêmio receba as homenagens por ter chegado bem até aqui.

E para terminar, uma piadinha hermética, mas que eu não poderia deixar de citar aos meus amigos gaudérios!

ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ... SÃO PAAAAAAAULO!!!!!

Hahahahahaha!
Beijos!

Da paulista tricolor

14 novembro, 2007

Lista de pedidos...

Fêfis, Nina e Jubs...

Hoje fiz uma listinha de pedidos para a viagem de vocês....entre tantas outras coisas, pedi:

1- Que o avião das gurias DECOLE de Sampa e FIQUE no CÉU e que durante este período o serviço de bordo seja feito tranquilamente, sem pausas por conta das turbulências...aliás, faça com que o Minuano fique quietinho durante o vôo, para que o avião não balance muito e a Jubs não quebre os dedos da Fêfis.Aproximadamente uma hora e quinze depois, faça o avião descer em modo POUSO - e não QUEDA no aeroporto Salgado Filho em POA. (Fêfis, reaproveitamento de texto, ok?);

2- Que o tempo fique maravilhoso e que Porto Alegre não mostre seu potencial bipolar, assim a gente poderá aproveitar bastante os passeios e delícias dessa cidade maravilhosa!

3- Um Guaíba lindo...um pôr do sol maravilhoso...

4- Risadas, muitas risadas...

5-Comida, muita comida...

6- Alegria, amor e amizade...

7- Que o tempo passe beeeeem devagar, para a gente matar a saudade e aproveitar cada minuto como se fossem horas...

Acho que o básico é isso...querem acrescentar mais alguma coisa?
E para dar aquele arrepio na espinha, aí vai um trecho de uma musica e algumas imagens para embalar a viagem de vocês ;)
Venham bem, queridas!

"Porto Alegre é que tem
Um jeito legal
É lá que as gurias etc. e tal

Nas manhãs de domingo
Esperando o Gre-Nal
Passear pelo Brique
Num alto astral

Porto Alegre me faz
Tão Sentimental
Porto Alegre me dói
Não diga a ninguém
Porto Alegre me tem
Não leve a mal
A saudade é demais

É lá que eu vivo em paz"





03 novembro, 2007

Sem palavras


Viajando, existem dois tipos de lugares que você pode visitar:
Os que te fazem sentir feliz. Você olha o horizonte, respira fundo e enche a alma de leveza e alegria. Dimensão paralela que recarrega seu espírito. Você sai de lá revigorada, achando que o paraíso existe, refúgio terrestre.
E existem aqueles que você, ao visitar, sente como inusitada vibração. Sua alma se inquieta, remexida. Você olha em volta e procura o que te toca assim tão forte e sutil. Não é alegria ou euforia.
É encontro. Esses lugares não te fazem sentir nem melhor ou pior. Você simplesmente se sente em paz, na felicidade de quem chega em casa.
Assustador, mas de beleza sem par.

Reproduzo aqui um post que já publiquei há algum tempo em outro blog, na tentativa de definir o que foi minha viagem mais recente a POA. Apesar das minhas já muitas idas, dessa vez a chegada me ofereceu espetáculo único: pude ver, bela como nunca, a cidade sob a luz do pôr-do-sol. O Rio Guaíba, o porto, os prédios todos banhados sob luz dourada. E naquele momento, meu peito foi também inundado de luz e alegria. A alegria por me sentir viva, por estar bem, por ter superado mais tantos desafios para chegar até ali. A certeza de me sentir querida, de ocupar lugar especial no coração de pessoas tão únicas como aquelas que iria encontrar. A felicidade de saber que sempre há um recomeço, e que ele pode ser coroado com a luz do sol, filtrada por nuvens brancas de algodão, acima de nós.

Essa chegada a Porto Alegre foi especialíssima. E assim seguiria toda a viagem, para mim: os papos intermináveis com minha irmã de alma, que tão bem me entende e conforta. A acolhida de uma querida família, com tanto amor e carinho, fazendo-me sentir feliz e privilegiada. A paisagem inesquecível do Guaíba, no vento de final de tarde, curando qualquer dor ou inquietação. A energia boa, especial, de pessoas que encontrei. O som cantado do sotaque que baila pela cidade.

Tudo isso dificulta um relato objetivo do que foi essa bela viagem. Uma viagem que, a cada retorno, acaba se tornando menos "viagem" e mais encontro: o refúgio terrestre aos poucos está tomando forma de segundo lar. E isso não é nada assustador. Mas é também de uma beleza difícil de descrever em fotos ou mesmo em palavras.

Adoro vocês!

Da paulista cada vez mais viajeira :)

25 outubro, 2007

Bem Vinda Mana Jú! Porto Alegre te espera!

Hoje, quando a querida mana Jubs estiver chegando a Porto Alegre verá essa Ponte sobre o Lago Guaíba, um dos cartões postais da cidade.
Quando aterrissar no Salgado Filho poderá visitar a Bienal do Mercosul, a Feira do Livro de POA, a Exposição 50 anos da RBS e comer Churros de MUMU passeando pelo mesmo rio que atravessou momentos antes, no céu.
Falando em Céu, deixo a música abaixo (outro símbolo do RS) como cartão de boas- vindas para nossa parte paulista desse querido cantinho!

"Eu quero andar nas coxilhas sentindo as "flexilhas" das ervas do chão
Ter os pés "roseteado" de campo ficar mais trigueiros com o sol de verão
Fazer versos cantando as belezas desta natureza sem par
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver sem chorar

É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
Eu quero me banhar nas fontes e olhar horizontes com Deus
E sentir que as cantigas nativas continuam vivas para os filhos meus
Ver os campos florindo e crianças sorrindo felizes a cantar
E mostrar para quem quiser ver um lugar pra viver sem chorar

É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor
É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor "


(Céu,Sol, Sul)

06 outubro, 2007

Linda terra de céu sempre azul*

Balões decolando do Aeroclube de Rio Claro, durante o 1º Campeonato Sul-Americano em 2006
(Foto: Gabriela Slavec)


Muito bem, cá estou de regresso. O que seria de mim se não fosse a mana gaúcha para me dar uns puxões de orelha? Hehehe... na verdade, em meu exílio involuntário, havia já pensado em escrever aqui um post sobre as coisas que andam me fazendo falta, e das quais pretendo matar as saudades na minha volta à Paulicéia. Mas gostei tanto da idéia de falar sobre minha atual paragem, nesses tempos de recuperação, que decidi antecipar esse tema ao outro. Vamos às terras rio-clarenses, pois.

Rio Claro, palco de minhas férias involuntárias dos últimos meses, não é minha cidade natal. Mas é a cidade de minha história familiar, primeira referência geográfica externa que aprendi a ter na vida. Com 170 mil habitantes, fica a 180 km de São Paulo. Tem praça chamada Liberdade, igreja Matriz de São João Batista, avenida principal Visconde de Rio Claro. Tem corpo de bombeiros, dois times de futebol e uma alameda bonita que leva ao cemitério, cheia de árvores, chamada Saudade. Tem colônias alemã, italiana e portuguesa. Tem brasileiros de diversas raças. Tem carnaval de rua, lendas urbanas do tempo dos escravos, quermesse em junho, parque de diversões, orquestra tocando no Natal e fogos de artifício no Ano Novo. Tem campo de aviação com esquadrilha da fumaça e campeonato de balonismo. Tem periferia e também Clube de Campo para os representantes da high-society.

De tempos em tempos, a cidade sofre com as queimadas de cana-de-açúcar dos arredores, que espalham fuligem preta pelo ar, pelos varais e pelas águas da região. Ainda assim, recebe o apelido de Cidade Azul, pela cor profunda e permanente de seu céu. Quase todos os adolescentes andam de bicicleta, aproveitando as ruas planas e o clima ameno. Se chove, chove pouco e forte. A chuva sempre é limpa e deixa um cheiro de terra molhada que reacende minhas lembranças de infância. O ar da cidade é seco, e no entardecer circula um vento leve e amarelo, que ficou, ao lado do gosto de vinho quente, nas minhas lembranças de adolescente.

Alguns filhos ilustres levaram ou levam o nome da cidade por aí. Nas rodas de samba de Narciso Trevilatto nos Demônios da Garoa, nas noites de amor cariocas de Dalva de Oliveira, nas lutas pelas Diretas de Ulisses Guimarães. E outros, embora não filhos da terra como esses, compartilham mais ou menos o mesmo cenário das lembranças de infância: Rita Lee, em visitas infantis à tia; o casal Julia Lemmertz e Alexandre Borges, que vez ou outra passa por aqui para ver a família; ou Débora Duarte e depois a filha, Paloma Duarte, ex-alunas internas do colégio onde minha mãe, e depois eu, estudamos.

Nas ruas de Rio Claro é impossível andar sem encontrar alguém conhecido. Sua tranqüilidade favorece a corrida rápida de notícias e, é claro, também o melhor controle sobre a vida alheia. A cidade foi, durante muito tempo, meu contraponto com o resto do mundo – com os meus sonhos adolescentes de fazer mala e correr estrada, minhas adivinhações de amores e vontades, que eu tentaria concretizar mais tarde. Foi motivo de conflitos e insatisfações, numa época em que todos nós, lutando para crescer, nos tornamos mais ou menos injustos e egocêntricos. Mas foi também fonte da quietude da qual senti falta quando saí da redoma de vidro; uma falta doída e insuspeita, que me fazia chorar à noite nos meus primeiros meses de São Paulo. E passado o choque de bater asas, virou referência de finais-de-semana por ser ainda ninho familiar e ponto de encontro dos amigos que, também tendo batido asas, para ali retornavam em busca de um chopp, de ombros amigos e das antigas e boas piadas.

A verdade é que, tentando escrever um texto um pouco mais objetivo sobre a cidade, percebo que a tarefa é mais difícil do que pensei: minha relação com ela nunca foi, nem poderia ser, indiferente. Daqui vêm as histórias de recomeço e luta de meus avós, que vieram singrando mares, buscando vida melhor. Da infância de meus pais, entre praças, árvores e rios, infância que um dia também tentaram me dar. O porto seguro para onde eles retornariam sempre, depois do trabalho, do estudo e do crescimento que, jovens, buscaram em São Paulo. Foi desejo meu, infantil, de passeios e brincadeiras nos finais de semana. E depois, revolta adolescente por ter se transformado num endereço que não escolhi. Mas com o passar dos anos, daqueles mesmos anos, se transformou também em fonte de referências para todos os sonhos que eu iria buscar depois. Para aqueles que se parecem com a paz das tardes dela, e para aqueles que são seu contrário. Tudo, afinal, partiu daqui, do tempo em que fui criando a consciência de que precisava virar gente, andar com as próprias pernas. Foi onde aprendi novas referências, descobri a paixão pela música, os amigos e valores que curariam qualquer tristeza. Foi onde intuí que existem formas diferentes de viver, de sentir o mundo. Foi onde aprendi que nenhuma história pode ser desprezada.

Por isso, saindo de uma tempestade sob os raios paulistas desse sol de outubro, não vejo outro jeito a não ser tirar uma licença poética (ainda que duvidosa... hehe) para falar da cidade. Como um aviso, vivi a situação de ser tirada do olho do furacão, dos meus pensamentos tão auto-centrados, e ser colocada aqui de novo por algum tempo, para pensar na vida. Os últimos dois meses tiveram peso e tamanho de uns dois anos para mim. Outro outubro intenso, embora diferente daquele de 2006, em que eu estava em tão distantes paragens, aprendendo tanto sobre o mundo, sobre o Brasil, sobre como conviver e sobre mim mesma.

O outubro de agora traz outro mergulho, no silêncio de meu quarto de adolescência, nas ruas que eu percorria com meus 15 anos, na visão das meninas e meninos uniformizados andando pela calçada em plena terça-feira à tarde, como eu já fui um dia. A vida era bem mais simples e eu não sabia. E, mesmo que eu já adivinhasse o que viria depois, e adivinhasse também que não trocaria aquela vida futura e complicada por nada no mundo, hoje percebo outra verdade: no fundo, o que a gente procura é sempre uma forma de voltar a ter as certezas que tinha na aurora dos sonhos, quando sabia direitinho o que era preciso para ser feliz.

Por: Paulista multicidadã :)

* O título do post é um trecho do hino oficial da cidade.

02 outubro, 2007

Peleia Braba, o Retorno!

Tsi, Tsi, Tsi...diz o ditado gaúcho que "Não tá morto quem peleia"...tenho de confessar que acredito totalmente nisso.Tanto, que cá estou eu, abancada com meu chimas tentando erguer a poeira braba que se instalou nesse humilde cantinho Interestadual.
Sim, pois fui brutalmente abandonada pela parte Paulista desse Blog...só me resta chorar e terminar meu mate assim, sozinha e desamparada...
A não ser que uma Luz apareça no fim do Túnel e a mana Jubs resolva contribuir novamente com seus belos textos sobre a Paulicéia...
Poderia também nossa informante paulista nos contar um pouco sobre sua Cidade Natal- Rio Claro.Terra de gente valente e ouvi dizer de gente famosa...dizem até que um Demônio (aqueles da Garoa, sabe?) tem origem por aquelas bandas..
Será?
Só um milagroso texto de Mana Jubs poderia desvendar estes e outros mistérios....
Fica o desafio..afinal..tô na peleia para que este blog não vire mais uma lenda na net...

Por: Gauchita Solitária